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O QUARTEL

Os Soldados que Guarnicionaram a Muralha de Adriano

Não eram legionários, mas sim auxiliares vindos de todo o império que guarneciam a Muralha de Adriano. Quem eram, de onde vinham e como viviam na fria fronteira de Roma.

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Não legionários, mas auxiliares

Uma surpresa comum: os homens que realmente guardavam a Muralha de Adriano não eram, na sua maioria, legionários romanos. As legiões de elite construíram a Muralha, mas a guarnição permanente era composta por auxiliares — soldados recrutados de todas as províncias do império que não eram cidadãos romanos, embora ganhassem a cidadania ao fim do serviço. Serviam em coortes de infantaria e regimentos de cavalaria, e foram estas unidades, rotacionadas e substituídas ao longo dos séculos, que guarneceram os fortes, as milhas e as torres. No total, estima-se que a fronteira tenha albergado entre 9.000 e 10.000 soldados no seu auge. Eram soldados profissionais, de longa carreira, e para muitos a Muralha não era um posto breve, mas o lugar onde viviam, trabalhavam, adoravam os seus deuses e, muitas vezes, morriam ao longo de uma carreira de vinte e cinco anos.

De onde vinham os soldados

A Muralha recrutava as suas guarnições de uma extensão surpreendente do império. Inscrições e as tábuas de Vindolanda atestam unidades de tungros e batavos dos Países Baixos, gauleses, espanhóis e — famosamente — uma coorte de arqueiros hamiotas da Síria estacionada em Carvoran. Com o tempo, muitos soldados foram recrutados localmente na Britânia, pelo que uma coorte "tungra" podia, gerações depois, estar cheia de homens nascidos na Britânia que mantinham um nome antigo. Esta diversidade deixou a sua marca: os soldados trouxeram os seus próprios deuses, alimentos e costumes para um charco frio do norte. De pé num forte como Housesteads, vale a pena lembrar que se pode estar a olhar para um lugar onde homens do Mediterrâneo, da Renânia e do interior britânico viviam lado a lado, unidos pela instituição partilhada do exército romano.

O quotidiano na fronteira do império

O serviço na fronteira era, na sua maioria, rotina, não batalha. Documentos de Vindolanda revelam um mundo de escalas de serviço, turnos de guarda, reparações de edifícios, pedidos de licença e papelada interminável sobre mantimentos. Os soldados precisavam de ser alimentados em grande escala — cereais, carne, cerveja e produtos locais fluíam para os fortes — e grande parte do dia de uma guarnição passava-se em manutenção, patrulha e administração, mais do que em combate. Uma tábua famosa é um convite para uma festa de aniversário; outra queixa-se do estado das estradas; outras listam meias, sandálias e roupa interior enviadas a homens que sentiam o frio do norte. É este detalhe granular e humano que torna a guarnição da Muralha próxima: não conquistadores sem rosto, mas soldados trabalhadores a lidar com o clima, o tédio e a burocracia longe de casa.

Deuses, altares e o culto de Mitra

A religião estava entrelaçada na vida militar, e os fortes da Muralha produziram uma notável variedade dela. Os soldados erguiam altares aos deuses oficiais de Roma, às suas divindades de origem e aos espíritos locais britânicos — cobrindo todas as bases em todo o panorama sobrenatural. Em Carrawburgh, um pequeno templo a Mitra, um deus misterioso popular entre os soldados, ainda sobrevive, ao lado de uma fonte sagrada dedicada à deusa Coventina, onde as tropas atiravam milhares de moedas e oferendas. Noutros lugares há dedicatórias a Júpiter, ao deus oriental Júpiter Dolichenus e a inúmeras divindades menores. Esta mistura religiosa é um dos sinais mais vívidos da guarnição cosmopolita da fronteira: um mundo espiritual tão variado quanto os homens que defendiam a linha.

Famílias, o vicus e a vida civil

Um forte raramente era só soldados. Fora das muralhas, assentamentos civis — vici — cresceram à volta da maioria dos fortes da Muralha: uma fileira irregular de lojas, oficinas, tabernas, templos e casas que albergavam comerciantes, artesãos e as famílias não oficiais dos soldados. Embora os soldados rasos estivessem formalmente proibidos de casar durante grande parte do período, muitos formavam parcerias duradouras e criavam filhos nestes assentamentos, e a proibição acabou por ser levantada. Escavações em Vindolanda e Housesteads revelaram ruas de tais edifícios, completas com a desordem quotidiana de uma comunidade ativa. A fronteira, portanto, não era uma linha militar solitária, mas antes uma cadeia de pequenas, movimentadas e mistas cidades — a sociedade romana em miniatura, transplantada para um dos cantos mais remotos do império.

Manter-se quente, limpo e alimentado

A vida na Muralha significava enfrentar um clima muito mais rigoroso do que a maioria dos soldados conhecera. Os romanos responderam com a sua engenharia característica: a maioria dos fortes tinha uma casa de banhos, aquecida por hipocaustos subterrâneos, onde os homens podiam lavar-se, suar, fazer exercício e socializar — o melhor exemplo sobrevivente fica junto ao rio em Chesters. Os quartéis tinham lareiras, e achados de meias grossas, capas pesadas e sapatos de couro resistentes mostram os soldados a vestirem-se em camadas contra o frio. A comida vinha de toda a região e além: cereais e carne locais, mas também vinho importado, azeite e molho de peixe que revelam gostos mediterrânicos a sobreviver numa fronteira do norte. Em conjunto, estes confortos mostram um exército que não apenas suportava a Muralha, mas que se organizava, metodicamente, para viver bem nela.

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